quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Resenha da demo Aljava

Por Alana Sales


Foi a pedido do meu amigo She Drink’s que eu aceitei resenhar a primeira demo do seu Projétil Paralelo. Na verdade, não seu, né, já que a banda também era composta originalmente por Su Suzete e Véi Miguélo. Devido a mudanças de cidade, atualmente os membros fixos são apenas Su e She, que estão morando em Sampa, mas enfim. Voltando, aceitei alegremente resenhar a demo, sendo eu a primeira pessoa de fora a ouvi-la e opinar. Pra começar, a demo se chama Aljava, como uma forma de nomear toda produção da Projétil que conta ao todo com 7 Temas compostos em conjunto pela formação original.
“Água em mim”, a primeira, é uma canção com notas simples e melodia semi-suave. Sua letra, escrita pela blogueira e ativista feminista Camila Puni, vai ganhando vida na voz da vocalista Su Suzete que recita com uma determinação plácida, como alguém que sabe o quê e porquê fala, enquanto guitarra e baixo encontram a harmonia e o tom certo para a mensagem que é passada. É uma letra que trata de imagem, aceitação, pressão sobre o corpo feminino num mundo onde as medidas de uma roupa valem mais que o caráter de alguém. Com 1 minuto e 25 segundos, “Água em mim” introduz bem o feeling e a essência militante-experimentalista da Projétil Paralelo, e prepara quem ouve para o que está por vir...
Aí vem “Hipocrisia”. De todas esta é a música mais “furiosa”, se é que se pode classificá-la assim. O som chiado da guitarra, ritmado por um baixo seco, dão o ritmo para a poesia que encontra identidade na voz de Su. A letra tem o tom amargurado e realista, como uma ofensa dita com palavras bonitas e um desabafo sem intenções de comover. É algo que toca porque lida novamente com a imagem, mas indo além, falando, de um modo muito pessoal, sobre todos os relacionamentos em que o prazer do sexo é a única coisa que o casal compartilha. De longe, a minha favorita.
O Tema 3 é inteiramente instrumental, o que não tira sua capacidade de transmitir uma mensagem. Faz você pensar no cotidiano, dá uma idéia de passagem, de fluxo, de coisas perenes e que não podem ser presas. Claro que essa é uma interpretação muito pessoal, mas em resumo é uma canção “de passagem”.
Na próxima música, “Luta Livre”, a guitarra começa contida, tímida, mas se revela no decorrer da letra. A melodia está aqui para acompanhar exatamente o clima triste, cansado, da poesia recitada por Su. É nesta letra que a militância da Projétil está mais evidente, e é impossível não sentir a mensagem de um modo muito especial. Fala com propriedade sobre aquilo que todo rebelde, militante, esquerdista, enfim, já viveu: o medo de que seus ideais morram, de que a luta acabe, de que as pessoas desistam. No entanto, há também a esperança, e quando Su diz “Tantas coisas podem nos parar, mas eu não ligo”, é com a idéia de determinação e firmeza que você termina de ouvir a música.
O Tema 5, como o três, é instrumental, mas este traz o título “Diariamente”. A guitarra oscila suas notas em partes alegres e mais intimistas, quando te faz pensar sobre toda mensagem da demo. Sem dúvidas, as músicas instrumentais da Projétil servem para que você entenda melhor a essência da banda, que vai além da música pela música, agregando sobretudo poesia ao seu jeito de tocar.
O Tema 6, “Road Warriors”, o terceiro e último instrumental, tem uma pegada tão heavy que, mesmo sem bateria, é impossível para um fã do estilo não classificá-la como tal. A música mais animada e “pesada” da demo é uma canção à parte, uma demonstração da capacidade que os músicos têm de ser versáteis no estilo e na composição, não se prendendo a uma forma única de tocar.
Então a última música, “Dança dos Garous”, faz a despedida. Em sua melodia é possível lembrar aspectos de “Água em Mim” e “Luta Livre”, mas de forma leve, indo além. A introdução um pouco maior faz com que a voz de Su, quando ela começa a recitar, se encaixe perfeitamente ao timbre da guitarra. E a letra por si só é um convite à liberdade, a experiências novas e velhas, a olhar para o mundo e enxergá-lo verdadeiramente, não como apenas parte de uma paisagem humana. Um fechamento com chave de ouro.

Após ouvir “Aljava” a primeira certeza que se tem é sobre suas evidentes influências. A guitarra traz, ora mais fortemente, como em “Hipocrisia” e no “Tema 3”, ora menos, como em “Dança dos Garous”, a lembrança da guitarra de John Frusciante e, de forma geral, todas as músicas da demo seguem a linha de simplicidade e beleza da composição frusciantiana. Em menor grau, mas ainda assim presente, é impossível não lembrar também de Jeff Buckley, cuja guitarra ao mesmo tempo sôfrega a intimista também foi uma das responsáveis a propagar a musicalidade “bela pelo simples”.
A segunda percepção a respeito da demo é de que a Projétil Paralelo é um som para poucos. Para os poucos ouvidos sensíveis que ainda existem no mundo. É um som que jamais seria comercial, porque na própria forma com que foi feito rompe com os padrões da indústria cultural, que busca o dinheiro pela repetição. O som da Projétil é experimentalista, do tipo que nunca se enquadra em nenhum estilo específico. Depois, conhecendo o meio underground, é um som que nem mesmo alguns dos mais fiéis undergrounds estão abertos para ouvir, porque no próprio meio já se estabeleceu um padrão do que é legal ou não. Em resumo, a Projétil Paralelo não é um som para ouvidos domesticados ou preguiçosos. É preciso estar aberto mental e musicalmente para entender a mensagem, a melodia, e a forma como ela é passada. Quando isso acontece é que o som feito por Su Suzete, Véi Miguélo e She Drink’ encontra seu lugar de ouro. 

Agradecemos Alana pela ótima resenha feita, e esperamos que o som seja  o que você procura.
Aproveite o som.
Download: http://www.mediafire.com/?56kibccrr7v27gr

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